sábado, 29 de novembro de 2014

Algumas coisas que você não sabia sobre Chaves


O dia 28 de Novembro de 2014 ficará marcado como o dia em que perdemos nosso pequeno Shakespeare. Chespirito (alcunha de Roberto Gomes Bolaños) faleceu as 14:30 deste fatídico dia. O mexicano ficou conhecido em todo o mundo por seus personagens carismáticos como o ranzinza doutor Chapatim, o malandro ladrão Chompiras, o super-herói desajeitado Chapolin e claro, o moleque Chaves.

O personagem é uma criança de oito anos, órfã e que mora em um cortiço com outros personagens tão irreverentes quanto (quem não lembra do bochechudo Quico, das desculpas do Seu Madruga para não trabalhar ou do romance cafona de Dona Florinda e Professor Jirafales). É inegável o amor que a série recebeu dos brasileiros. Em nenhum outro lugar do mundo o fanatismo com os personagens mexicanos se estende tão longe.

E porque estou comentando tudo isso? Porque nesse post eu vou te contar algumas coisas sobre a história do Chaves que talvez você não saiba. Não, eu não vou contar a teoria dos sete pecados capitais, e nem aquela de que a vila é o Inferno. Tudo nesse post é baseado em fatos.

Em 2006, Chespirito escreveu um livro intitulado "O Diário do Chaves". Em uma metalinguagem, digna de um autor como ele, o próprio Bolaños narra que entrou em um ônibus e foi abordado por um garoto. Esse menino de roupa remendada pede gentilmente para engraxar os seus sapatos. Após o término do serviço o garoto vai embora esquecendo um pobre caderninho para trás.

Essa cena aconteceu de fato. Chespirito revelou que teve a ideia para o personagem por causa de um menino de rua que engraxou seus sapatos certa vez. Bem, o garoto de verdade não esqueceu um diário, mas essa foi a forma que o autor encontrou de dar maior voz ao menino.


Chaves sempre lidou com temas de extrema importância social e com um humor leve conseguia fazer críticas sensacionais. Como em uma cena em que Professor Jirafales, Dona Florinda e Quico discutem como as crianças no mundo estão passando fome... Enquanto comem um prato inteiro de biscoitos sem oferecer nenhum ao pobre Chaves. Ou no episódio do aniversário do Quico em que vemos como Dona Florinda e seu filho (os "ricos") são mesquinhos e egoístas, enquanto Chaves divide a pouca comida que tem com Seu Madruga (que por sua vez divide com o menino um pequeno refresco).

Em resumo: apesar de ser uma série de comédia, deu para perceber que ela tem alguns momentos dramáticos. Chaves é um menino órfão que passa fome todos os dias e mau tem um lugar para morar, sendo condicionado a um barril (será?). No livro que eu citei mais acima, existem alguns fatos sobre o menino de gorro verde e roupa remendada que com certeza não poderiam entrar na série. Vamos a eles:

Aqui embaixo está CHEIO de spoilers. Eu vou contar praticamente tudo sobre o livro. Se não quiser ver os spoilers, pula direto pro final do post onde tem os links caso você queira comprar. Já adianto que vou ferir sua infância. Siga por sua conta e risco.



- Chaves tinha uma mãe muito pobre. Ela trabalhava como lavadeira. Ela o deixava em uma creche comunitária para trabalhar. Até que um dia não voltou mais para busca-lo (talvez o abandonou pela pobreza, talvez tenha sido vítima de violência e não sobreviveu, vai saber). Assim, o menino foi encaminhado a um orfanato.

- Neste orfanato, o pequeno sofria maus tratos, principalmente da dona do lugar, a Dona Martina. Chaves conta que certa vez ela lhe arrancou sangue do nariz, e como punição por ter manchado de sangue a camisa, ele ficou um dia inteiro sem comer.

- Você se lembra do Cente, o amigo imaginário do Chaves? No episódio "O Violão do Seu Madruga", o garoto usa a desculpa do amigo para pegar a comida do chão e guardar para ele. Pois esse amigo existiu de verdade e Chaves o conheceu no orfanato. O amigo não chegou a idade adulta, morrendo por viver tanto tempo doente.


- Passando fome após fugir do orfanato (por causa das surras que levava) Chaves cogitou se tornar um ladrão, mas como sabia que era pecado desistiu. Desta forma preferiu pedir comida por onde andava. Até que lhe deram... Um sanduíche de presunto. A primeira (e talvez única) coisa saborosa que o garoto experimentou na vida. Daí sua fixação com esse lanche.

- Chaves foi ajudado por um senhor que deixava ele dormir nos carros dele. Mas o moço era tão bom que não só convidava o Chaves, como também outras moças. Ou seja, o mesmo cara que dava abrigo ao Chaves também levava prostituas para transar no carro. Em troca, Chaves carregava água para lavar os carros.

- Seus primeiros amigo fora do orfanato foram alguns garotos de rua. Um deles inclusive não tinha uma das mãos. Pelas condições precárias em que os moleques viviam, este acabou contraindo uma infecção grave e a única solução foi amputar.


- Esses mesmo garotos faziam consumo de drogas. Um cigarro, que implicitamente pode-se entender que seja maconha e também cheiravam cola de sapateiro. Em sua vida de menino de rua Chaves chegou a fumar maconha e cheirar cola.

- Nesse mesmo momento que Chaves experimenta drogas pela primeira vez, é quando um de seus amigos é assassinado. Ele vê o corpo do menino coberto de sangue, mas não fica explícita a causa da morte. Esse foi o estopim para que Chaves fugisse. Essa fuga acabou fazendo com que ele encontrasse uma velha vila de portão marrom.

- Ao chegar na vila, Chaves foi "adotado" por uma velhinha que morava na casa de número 8. Sabe-se que o programa originalmente se chamava El Chavo del Ocho (O Moleque do Oito), e que essa era uma referência ao canal no qual era exibido, o de número 8. Mas com o tempo o número 8 acabou entrando no contexto da casa.

- A velhinha tinha mal de parkinson e reclamava da tremedeira nas mãos. Acreditava que um dia Deus faria suas mãos pararem de tremer. E pararam. Um dia Chaves chegou na casa 8, e as mãos da velha estão quietinhas, e ela não se mexia. Não se mexeu nunca mais.

- Eventualmente a casa de número 8 foi ocupada por um novo inquilino. Mas o garoto ficou na vila mesmo assim. Um dia dormindo na casa de um, depois na casa de outro.

- Outro personagem que acaba por falecer no livro é o carteiro Jaiminho.

[FIM DOS SPOILERS]


Mesmo com estes momentos tristes da saga do garoto que não tinha nome, não tinha comida, não tinha casa, mas sempre teve uma aliada: a imaginação, a série não desce em momento algum o seu valor. Desde a década de setenta aquela vila do México vem arrastando multidões com sua excentricidade e genialidade. As piadas eram tão simples, e era justamente isso que trazia nelas um toque de genialidade de um escritor que recebeu o merecido apelido de "Pequeno Shakespeare".

Queria eu que fosse apenas um piripaque, e que se jogássemos água ele voltasse para nós. Se fosse mesmo, todas as lágrimas já derramadas por todo o mundo seriam muito uteis. Talvez se ele nos visse tão tristes assim diria que foi sem querer querendo. Mas todos nós sabemos que seus movimentos são friamente calculados, então ele foi para onde tinha que ir. Se eu fosse Deus também ia querê-lo bem perto de mim.

Talvez Roberto Gomes Bolaños tenha nos deixado, mas Chaves continua aqui, assim como Chapolin e toda a genialidade que o autor e ator deixou para nós, e para nossos filhos e para nossos netos - a verdade é que Chespirito sempre vai estar aqui com a gente.

E como diz o próprio Chavinho na música Boa noite vizinhança: "Prometemos nos despedirmos, sem dizer adeus jamais!"

Descanse em paz Chespirito. E obrigado por tudo. Pelas risadas depois do colégio. Pelos bordões que repeti incansavelmente. Apenas obrigado.



Comentários
3 Comentários

3 comentários:

  1. Acho que você já passou tudo o que estamos sentindo. É triste, mas nós continuaremos vendo Chaves, continuaremos dando o imenso valor à maior obra desse fantástico autor.

    Seu post me tocou, ficou excelente.

    Adeus, Roberto.

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  2. Nossa, amei essse post. Os agradecimentos no final me tocou muito!

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  3. Nossa, amei essse post. Os agradecimentos no final me tocou muito!

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